O que a seca de setembro sinaliza para a produção rural brasileira

Agricultor caminha por um campo seco no Brasil, entre áreas de solo exposto e vegetação rala.

O planejamento da produção rural brasileira para os próximos meses passou a exigir atenção maior aos indicadores de água no solo, nas pastagens e nos recursos hídricos. O monitoramento divulgado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aponta que a seca ganhou intensidade entre agosto e setembro de 2026, com reflexos potenciais sobre áreas utilizadas pela agricultura e pela pecuária.

De acordo com o monitoramento de secas e impactos do Cemaden, o número de municípios brasileiros classificados nas categorias de seca severa e seca extrema subiu de 157, em agosto, para 276, em setembro. A variação representa crescimento de 75,8% no intervalo de um mês.

Pressão sobre lavouras e pastagens

O levantamento também avaliou a parcela de áreas agrícolas e de pastagens potencialmente atingida pelo fenômeno. Em setembro, 317 municípios tinham pelo menos 40% de suas áreas agropecuárias sob possível impacto da seca. Dentro desse grupo, 228 municípios apresentavam mais de 80% da área agrícola ou de pastagem potencialmente afetada.

Esses dados não significam, isoladamente, que toda lavoura ou criação nessas localidades tenha sofrido perda confirmada. O indicador aponta a possibilidade de impacto associada às condições de seca observadas. Ainda assim, ele funciona como sinal de atenção para decisões relacionadas ao calendário de plantio, à manutenção das pastagens, à oferta de água para os animais e ao acompanhamento das condições de desenvolvimento das culturas.

Nordeste concentra os maiores percentuais

A distribuição regional mostra concentração dos casos mais intensos no Nordeste. A Bahia registrou 65 municípios com mais de 80% da área agropecuária potencialmente afetada. Em Alagoas, foram 75 municípios nessa condição, enquanto Sergipe teve 58.

O monitoramento também identificou áreas potencialmente impactadas no Amazonas, em Pernambuco e em outras unidades da federação. A presença de municípios em diferentes regiões reforça que a análise precisa considerar as características locais, como o tipo de atividade rural, a dependência das chuvas, a disponibilidade de reservatórios e a condição das pastagens.

O que mede o IIS-3

A classificação usada no levantamento tem como referência o Índice Integrado de Seca, identificado como IIS-3. O indicador reúne informações para representar a intensidade das condições de seca e permitir a comparação entre municípios e períodos. As categorias severa e extrema correspondem a níveis mais elevados de atenção no monitoramento.

Na prática, o IIS-3 não substitui a verificação direta feita por produtores, órgãos públicos e equipes técnicas em cada propriedade ou bacia hidrográfica. O índice oferece uma visão territorial ampla, útil para reconhecer áreas prioritárias e orientar o acompanhamento de possíveis efeitos sobre a produção, a vegetação e a disponibilidade de água.

Recursos hídricos entram no planejamento

A evolução do quadro também amplia a importância de observar rios, reservatórios e vazões, além dos registros de chuva. O Boletim de impactos de extremos hidro-geo-climáticos do Cemaden reúne informações complementares sobre efeitos em atividades estratégicas, agricultura, vegetação, níveis dos rios e previsão de vazões para outubro de 2026.

Para o campo, esse conjunto de informações ajuda a identificar riscos antes que eles se convertam em problemas mais amplos. A disponibilidade de água influencia tanto a implantação e o desenvolvimento das lavouras quanto a capacidade de suporte das pastagens e o abastecimento dos rebanhos. Por isso, o acompanhamento contínuo é relevante para o planejamento da safra 2026/27 e para a definição de medidas de gestão de risco.

O avanço registrado entre agosto e setembro não determina sozinho o resultado da produção rural. A evolução dependerá das condições climáticas seguintes e da situação específica de cada município. Mesmo assim, a ampliação do número de localidades em seca severa ou extrema e a extensão das áreas agropecuárias potencialmente afetadas colocam a gestão da água no centro das decisões de produtores e autoridades.