A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apresentou, em 1º de setembro de 2026, uma nota técnica com 163 medidas de gestão de riscos climáticos na agropecuária. O material foi elaborado diante da possibilidade de ocorrência de um El Niño de forte intensidade entre setembro e novembro, mas reúne recomendações que também podem ser incorporadas de forma permanente ao planejamento das propriedades rurais.
O cenário climático exige atenção dos produtores porque os efeitos do fenômeno variam de acordo com a região. Conforme informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), havia probabilidade superior a 90% de o El Niño se configurar como muito forte no trimestre formado por setembro, outubro e novembro de 2026.
Medidas são divididas por áreas de aplicação
As recomendações da Embrapa foram organizadas em três grupos. O primeiro reúne 14 medidas transversais, aplicáveis a diferentes atividades agropecuárias. O segundo concentra 139 ações específicas para cadeias produtivas, enquanto o terceiro apresenta dez iniciativas voltadas ao apoio de políticas públicas. Juntos, os grupos formam um conjunto de estratégias para antecipar riscos e reduzir a exposição de agricultores e pecuaristas a eventos extremos.
Entre as orientações estão o acompanhamento regular das previsões meteorológicas, o uso de dados climáticos locais e a adoção do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). O documento também recomenda diversificar a produção, planejar a infraestrutura da propriedade, contratar seguro rural e elaborar planos de contingência. A combinação dessas medidas pode ajudar o produtor a tomar decisões mais adequadas sobre plantio, manejo, armazenamento e comercialização.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, a nota técnica considera que o fenômeno pode provocar atraso no início das chuvas, déficit hídrico, temperaturas elevadas, excesso de precipitação, ocorrência de doenças fúngicas, dificuldades no plantio e problemas durante a colheita. A intensidade e o tipo de impacto, no entanto, dependem da localização, da cultura e das condições específicas de cada sistema produtivo.
Centro-Norte pode enfrentar chuvas abaixo da média
O cenário apresentado aponta maior probabilidade de chuvas abaixo da média em áreas do Centro-Norte do Brasil e de precipitações acima da média na Região Sul. Para propriedades localizadas no Centro-Oeste e em outras áreas do Norte e do Nordeste, a irregularidade das chuvas pode elevar a necessidade de planejamento hídrico e de acompanhamento das condições do solo.
No caso de Mato Grosso, estado cuja economia tem forte ligação com o agronegócio, a avaliação regionalizada das condições climáticas é especialmente relevante para decisões relacionadas à safra 2026/2027. A nota da Embrapa não substitui a análise técnica local, mas indica instrumentos que podem ser combinados com assistência especializada, informações meteorológicas e histórico de produtividade de cada propriedade.
Planejamento deve começar antes do plantio
A gestão de riscos climáticos na agropecuária depende de decisões tomadas antes da ocorrência de perdas. O produtor pode avaliar janelas de plantio indicadas pelo Zarc, verificar a disponibilidade de água, revisar estruturas de armazenamento e transporte e definir alternativas para situações de estiagem ou excesso de chuva. A diversificação de culturas e sistemas produtivos também aparece como estratégia para reduzir a dependência de uma única atividade ou período de colheita.
O seguro rural é outro instrumento citado entre as medidas de prevenção. A contratação deve ser analisada de acordo com a atividade, a região, o ciclo produtivo e as coberturas disponíveis. Da mesma forma, o monitoramento contínuo das previsões meteorológicas permite ajustar práticas de manejo e identificar antecipadamente condições que possam afetar o desenvolvimento das lavouras ou a criação de animais.
A Embrapa informou que trabalha em recomendações regionalizadas para as regiões Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte, além de uma orientação específica para o Sul do país. A regionalização é importante porque o mesmo fenômeno pode provocar efeitos opostos em diferentes partes do território brasileiro, com redução de chuvas em algumas áreas e excesso de precipitação em outras.
Recomendações também apoiam políticas públicas
Além de orientar diretamente o setor produtivo, as dez iniciativas voltadas a políticas públicas podem contribuir para aperfeiçoar ações de prevenção, financiamento, seguro, assistência técnica e resposta a emergências climáticas. O objetivo é fortalecer a capacidade de antecipação do poder público e reduzir os impactos econômicos e sociais provocados por eventos extremos.
De acordo com a Embrapa Agricultura Digital, as propostas foram estruturadas para responder ao possível El Niño de 2026 e, ao mesmo tempo, estimular uma abordagem contínua de prevenção e adaptação. Para o produtor rural, a principal orientação é não esperar a confirmação de um evento extremo para revisar o planejamento da safra e os mecanismos de proteção da atividade.








